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Ghost in the Shell, hackers, e o futuro da cibersegurança hoje

30 anos após o 1.º filme animado, veja como Ghost in the Shell previu a cibersegurança atual, inclusos hackers que trabalham para governos

28 semanas atrás

Ghost in the Shell, a obra multimídia criada pelo mangaká Masamune Shirow, se tornou popular no ocidente graças ao longa animado de 1995, dirigido por Mamoru Oshii (Jin-Roh: The Wolf Brigade) e que inspirou gerações de animadores, roteiristas e diretores em todos os cantos, de James Cameron às irmãs Wachowski, que o usaram como uma de suas referências para a trilogia Matrix.

Além de abordar uma profunda reflexão sobre o que realmente significa ser humano, Ghost in the Shell também discute temas bastante atuais quanto à cibersegurança e Segurança da Informação.

Ghost in the Shell (Crédito: Divulgação/Production I.G/Crunchyroll/Sony)

Ghost in the Shell (Crédito: Divulgação/Production I.G/Crunchyroll/Sony)

Ghost in the Shell e a segurança em TI

No mundo pós-cyberpunk de Ghost in the Shell, a computação, robótica e cibernética evoluíram a tal ponto que em 2029, ano em que se passa o filme (lembre-se, estamos falando de uma obra de quase 40 anos), quase todo mundo possui implantes ou próteses, ou mesmo corpos cibernéticos completos, e o modo mais popular de navegação pela rede é usando o próprio cérebro, via uma interface que permite interação direta. Não raro, partes do cérebro podem ser também cibernéticas, em casos de trauma extenso.

A trama principal dos vários mangás, filmes (incluindo o live-action com Scarlett Johansson) e séries, gira em torno do tema sobre o que é humanidade e consciência, quando humanos mais parecem robôs e IAs se tornam cada vez mais humanas, questionamento esse feito pela protagonista, major Motoko Kusanagi.

O mangá original de Masamune Shirow, publicado no Japão entre 1989 e 1990 e compilado em um volume único em 1991, teve um de seus arcos adaptado para a tela grande, o do "Mestre dos Fantoches", um hacker que ninguém sabe quem é, e que vem causando caos pelo mundo ao invadir tanto terminais pela internet afora, quanto os cérebros eletrônicos de diversas pessoas.

Ele era uma IA avançadíssima criada por uma agência do governo japonês, no caso o Ministério de Relações Exteriores, que se tornou rebelde e se autodeclarou consciente, se dizendo um ser vivo.

A cena na qual o corpo em que o Mestre dos Fantoches estava habitando é ativado, e a discussão que ele trava com o chefe Aramaki da Seção 9, a unidade de contraterrorismo da qual Motoko faz parte, é um bom exemplo sobre o que define "vida" e "senciência".

Há uma série de elementos que o mangá e o filme de 1995 abordam que são absurdamente atuais. A World Wide Web, por exemplo, foi criada no mesmo ano em que Shirow começou a publicar as histórias de Motoko e da Seção 9; embora a internet só surgiria como uma ferramenta aberta ao público no mesmo ano em que a adaptação de Oshii chegou aos cinemas (na esteira daquela carta de Bill Gates e do Windows 95), é bem provável que o mangaká estava bem antenado aos desenvolvimentos da computação na época.

Quando a Seção 9 está no início da investigação sobre o Mestre dos Fantoches, Motoko invade o sistema do Departamento Sanitário, em busca de rastros do Mestre dos Fantoches, de forma similar a agências que monitoram vastas áreas da net, em busca do que quer que estejam investigando.

Paralelamente, um lixeiro confessa ter hackeado o cérebro da esposa, por suspeita de que ela o traía, para depois descobrir que é solteiro, nunca foi casado nem tem uma filha, e que ele foi infectado com memórias falsas para invadir (sem saber) instalações do governo, da mesma forma que malwares invadem PCs e equipamentos para diversas atividades, como minerar criptomoedas ou em ataques de negação de serviço.

O oficial da Seção 6 descreve para o chefe Aramaki uma série de métodos usados para "rastrear" os hábitos do Mestre dos Fantoches e viabilizar sua captura, o que não difere do que companhias de cibersegurança fazem atualmente, por exemplo, empresas de antivírus para combater diversas pragas digitais.

A própria identidade do Mestre dos Fantoches, como um programa/IA criado pelo governo japonês para espionagem industrial e facilitar vantagens para políticos e poderosos, tem um paralelo gritante com grupos conhecidos ligados à Rússia, Coreia do Norte e China, que operam para levantar fundos e redirecioná-los a nações, para fortalecer suas máquinas de guerra ou financiar seus programas nucleares.

A NSA, agência de vigilância dos Estados Unidos ligada à CIA e exposta por Edward Snowden, não difere muito de um grupo hacker quando lembramos que seus agentes grampearam comunicações de mandatários de outros países, do Brasil inclusive, um país na época considerado aliado.

Só não faça cara de chocado, pois a regra é clara: todo mundo espia todo mundo, o tempo todo, mesmo nós não somos tão bonzinhos assim.

Quando o mangá e o filme saíram, o termo "cibersegurança" nem existia, a área de Segurança da Informação era conhecida como Segurança da Computação, e era tratada como um nicho à parte da Ciência da Computação, quase uma curiosidade. Vírus e pragas eram compartilhados primariamente com disquetes, mas casos como Creeper, Michelangelo e Jerusalém (mais conhecido como Sexta-Feira 13) se tornaram notórios, mesmo entre a população na era pré-internet.

O ato de caçar um hacker através da rede interconectada de sistemas de informação, antes da internet, relatado por Clifford Stoll em seu livro The Cuckoo's Egg, também pode ser considerado uma referência usada por Shirow para criar o Mestre dos Fantoches; ironicamente, Stoll é hoje achincalhado por supostamente errar todas as previsões que fez sobre a internet, mas se você parar e ler nas entrelinhas, vai ver que ele não errou tanto assim.

Hoje, é inegável que Ghost of the Shell, o filme de 1995, é um clássico da animação (nota: RIP Atsuko Tanaka, nossa eterna Major), mas é interessante perceber o quão precisa foi a obra, ainda que fantasiosa (ainda não dá para "fundir fantasmas", mas quem sabe daqui a uns 50 anos?), em diversos aspectos da Segurança da Informação e Cibersegurança, inclusive com desenvolvimentos atuais, ocorrendo neste exato momento.

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